no castelo de chuchurumel

   

 

Festa do S. Brás | Modinhas à moda da Dona Júlia | A arte de Gastão Augusto Rodrigues

 

.     .     .   .      .     .     .     .     .     .  .

     

 

 

 

 

 

 

 

Fotografias: Agostinho Sanches

 

A festa do S. Brás

 Apesar do que consta por aí, a tradição ainda é o que era. As provas aí estão, à vista. Basta procurar, preferencialmente em locais mais recônditos e apegados à memória.

Desde sempre que a festa do S. Brás, realizada nos Montes (um lugar com catorze habitantes situado na freguesia de Santa Maria, concelho de Trancoso), me seduziu. É uma festa genuinamente popular, sem atracções ou convidados, feita pelos grupos de bombos dos lugares vizinhos. Alguns desses grupos nasceram para participar na festa e não mantêm actividade regular durante o resto do ano. Por outro lado, é curioso observar: grupos de bombos na região de Trancoso? Afastados da zona de bombos por excelência (a Beira Baixa), distantes da região do tamboril (Alentejo) e dos grupos de gaita-de-foles e caixa (Trás-os-Montes), como se explica esta tradição perfeitamente circunscrita num raio de poucos quilómetros? Alguns chamam à colação os celtas e as suas festas com bombos e caixas, instrumentos capazes de produzir barulheira suficiente para afastar os espíritos ruins; outros, defendem que onde há pastorícia há instrumentos feitos com a pele dos animais. Certezas, na verdade, não há.

Disposto a conhecer melhor a festa, propriamente dita, vou ao encontro de José Luís Aguiar da Cruz dos Santos, um excelente cicerone e óptima companhia para uma tarde morna de princípio de Agosto. Nascido e criado na Quinta do Vale das Gralhas (próxima dos Montes), vem para os Montes aos trinta anos e logo começa a fazer parte da mordomia da festa. Hoje, aos sessenta e três, sente-se cansado e passou a incumbência a outros. Todavia, está sempre disponível para ajudar e ainda conserva a chave da capela.

O dia de S. Brás festeja-se a três de Fevereiro. Aliás, um ditado popular referente ao mês de Fevereiro assim o diz: “Primeiro jejuarás, segundo guardarás (dois de Fevereiro era dia santo de guarda), terceiro dia de S. Brás”. Na actualidade a festa realiza-se ao Domingo e calha sempre entre o dia três e o dia nove de Fevereiro. S. Brás, um mártir cuja vida apenas é conhecida por narrativas tardias e lendárias, morreu em princípios do século IV (316) e foi bispo de Sebaste (Arménia). É o patrono dos cardadores de lã e o advogado da garganta. (Ainda há pouco tempo era possível procurar as melhoras para a garganta nos rebuçados S. Brás).

No dia da festa cedo se ouve ao longe a voz grave dos bombos e o rufar das caixas. São as maltas (grupos de bombos) que se aproximam, cada uma acompanhada pelo povo da sua localidade: Vila Novinha, Venda do Cepo, Carapito, Rio de Moinhos, e Miguel Choco. Cada malta chega à vez, percorre o itinerário do costume e, antes de poisar os instrumentos no local de sempre (cada malta tem o seu sítio definido há anos e anos), faz uma demonstração do seu valor: atroadas de caixas e bombos misturadas com gritos e vivas — quais brados guerreiros identificadores de um clã.

Do itinerário faz parte a volta em torno da capela (realizada em silêncio e profundo recolhimento) e a subida ao cruzeiro do Senhor da Pedra. Conta a lenda que certo lavrador utilizou para gradear uma pedra retirada do local onde actualmente se localiza o cruzeiro. No dia seguinte, para seu espanto, a pedra tinha desaparecido do local onde a deixara e, para maior pasmo, foi topar com ela no local de onde a tinha retirado no dia antes. Voltou a utilizá-la e o mesmo sucedeu. Outros lavradores da terra gradearam com a mesma pedra e o resultado foi sempre igual: a pedra, durante a noite, regressava ao mesmo local. Repararam, também, que as terras gradeadas com aquela pedra produziam mais. Então o povo resolveu erguer um cruzeiro no local e construir, mais abaixo, uma capela que, mais tarde, em 1863, sofreu uma intervenção com vista ao seu restauro e ampliação. Da pedra fizeram um crucifixo que ainda hoje se encontra na capela, do lado direito do altar.

A festa do S. Brás sempre foi uma festa de rivalidades, local de resolução de desaguisados pessoais e de ajuste de contas. Era comum dizer-se: “no dia de S. Brás resolveremos isso…”. Animados por um copito e no calor do despique, não hesitavam em empregar os varapaus que levavam ao ombro na cabeça dos rivais. Hoje os romeiros continuam a fazer-se acompanhar por varapaus, mas apenas para lembrar a tradição. Os bombos, por sua vez, integravam também este quadro de disputas e rivalidades: tratava-se de ver quem tinha os melhores… e era tocar até romper. (Ainda hoje, na Beira Baixa, os tocadores exibem com orgulho as peles rasgadas por uma mocada mais violenta.)

Hoje os tempos são definitivamente outros: José Santos mudou a feira para um terreiro amplo afastado da capela, há um parque de estacionamento organizado e as pessoas dos Montes já não vão a pé a Trancoso vender molhos de lenha para aquecer o Inverno, queijos de cabra e leite.

 

A chave roda na fechadura e um som metálico e grave faz abrir a porta. Para além da imagem (obrigatória) de S. Brás, surgem as imagens de Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora da Conceição, S. Sebastião e Santa Bárbara. Ao canto, do lado esquerdo, um ex-voto: uma vela bastante alta.

Quanto a Santa Bárbara, vale a pena referir que existia alguma crença nas virtudes do sino da capela para fazer acalmar as trovoadas. Existem até por perto terras legadas por uma devota de Santa Bárbara.

Nos Montes existem ainda dois locais assinalados por cruzeiros. Era aí que, a seguir à Páscoa, se juntavam populações vizinhas para rezar as ladainhas. Procuravam, assim, espantar as pragas que ameaçavam as colheitas. Num local reuniam-se as pessoas de Rio de Moinhos, Sintrão e Castaíde, e noutro os grupos vindos da Venda do Cêpo, Miguel Chôco, Aldeia Nova, Aldeia Velha e Fiães. Uma forte religiosidade levava-os a percorrer quilómetros em busca de um sítio especial para as suas preces. Para assinalar tais locais, o meu anfitrião resolveu fazer erigir cruzeiros novos. Senhor de uma sensibilidade natural para preservar e respeitar o antigo, conservou, porém, os antigos. É interessante encontrar alguém que valoriza o antigo por intuição, enquanto outros, com obrigações acrescidas, manifestam o mais cruel desinteresse. É nestas ocasiões que me apetece recordar o provérbio judaico que diz: O futuro pertencerá àqueles que tiverem melhor memória.   

Texto de César Prata

 

 

   

  Modinhas à moda da Dona Júlia

" Sempre tive vontade de cantar. Cantava em qualquer lado. Ainda mesmo agora, quando ando boa, ando sempre a cantarolar."

" Deus sabe o que passámos "

Nasceu na Aldeia, a 15 de Janeiro de 1926, e sempre aí viveu. Aldeia, assim e só, é a forma simples e carinhosa como trata a sua terra, Aldeia do Bispo. O seu carácter alegre afrontava os tempos tristes da sua juventude. Tristes pelas dificuldades, tristes pelas canseiras, tristes pela labuta diária para conseguir o pão. Júlia da Costa Fonseca, a mais velha de uma fratria de sete irmãos, cedo teve de começar a trabalhar, a ajudar.
Apesar de não ser de obriga, andou na escola até à terceira classe. Mas não ia sempre... era conforme calhava: ou calhava ir à escola, ou calhava ajudar a mãe a fazer borralho. Arrancava-se um pouco de mato (giestas, sargaços, pinhos), juntava-se tudo numa moreia e deitava-se-lhe o fogo. Quando a madeira estava meia queimada chegava a vez de a água matar as labaredas. Esperava-se então que o lume morresse e depois apanhava-se o borralho para sacas de serapilheira. Punham-se as sacas à cabeça e tomava-se o caminho da Guarda, a pé, à procura das clientes que iriam aquecer o Inverno acendendo as braseiras com o borralho de Aldeia do Bispo.
Havia muita gente que fazia borralho. A vida era dura e não havia abonos, nem seguros, nem reformas. Era tudo ao poder do trabalho do dia a dia. Foi a fazer borralho que Júlia, por exemplo, ganhou dinheiro para comprar uns sapatos novos para ir à festa da Santa Cruz.
Outra actividade muito comum na época era a venda das corcódeas dos pinheiros. Na Catraia, onde se volta para Vale de Estrela, descascavam-se pinheiros e enchiam-se sacas para ir vender à Guarda. Ao longo do dia faziam-se várias viagens, tantas quantas se conseguisse. Cada saca valia... oito tostões.
Júlia também não escapou às tarefas serviçais. Serviu, na Guarda, para três patroas: numa casa ao pé do Liceu, numa pensão situada por cima da actual Casa do Bom Café e numa quinta. Mas esteve na cidade pouco tempo. O pai não era dos melhores porque tinha um vinho muito ruim. As saudades de casa apertavam e a vontade de estar ao pé da mãe e dos irmãos fizeram-na regressar à Aldeia.
Aos doze anos foi pela primeira vez à ceifa. Até à idade de vinte e três anos tornou sempre a ir. Era um mês inteiro a ceifar: quinze dias para os lados da Guarda e quinze dias para Belmonte
: ceifar de sol a sol em troca de cinco escudos.
A praça dos ranchos era na Guarda, num largo cheio de árvores. (As árvores foram cortadas e aí nasceu o Hotel Turismo.) Os patrões que vinham à cata dos ranchos falavam com os manajeiros e justavam a jorna. Iam em ranchos de vinte pessoas, sempre a pé e a cantar. Quando o sol nascia já estavam na seara; punha-se o sol e ainda andavam a juntar os molhos. Era uma vida dura, muito dura. Até ao domingo de manhã ceifavam um migalho.
Aos quinze anos Júlia ficou sem pai e viu acrescidas as suas responsabilidades de filha mais velha. Passou a andar ao minério na ponte da Vela. Às oito horas da manhã oitenta pessoas desciam a encosta, a pé, rumo a mais um dia de trabalho. Lá os esperavam o patrão (o senhor Cândido da Estação da Guarda) e os capatazes (uns homens de Alcains). A água corria numas caleiras de madeira e os trabalhadores tratavam de puxar a terra para cima
- o que importava era o estanho. Mais tarde também andou ao volfrâmio, à Ponte da Quintinha.
Sabe como ninguém lidar com a terra e os trabalhos agrícolas nunca a intimidaram. Sachar milho, colher milho; semear feijão, colher vagens; semear batatas, sachar batatas, apanhar batatas; apanhar castanhas; apanhar azeitonas. Fazia-se de tudo para garantir o sustento. Sempre a trabalhar na terra, na terra dos outros. Trabalhava-se toda a semana, de segunda a sábado. Não havia dinheiro, não havia contas, não havia nada. Ao sábado recebia-se uma fatia de pão, uma malga de feijão, uma caldo de batatas. Trabalhava-se para comer. Ter uma casinha para viver era uma felicidade e Júlia tinha-a.
Os porcos eram para vender. Poucos se podiam dar ao luxo de gozar a matança. Quando as porcas pariam ia-se a pé ao mercado vender os leitões. Certa vez foi mercar um porco a Valhelhas. Desceu à Vela, seguiu até à Senhora da Misericórdia e dirigiu-se à ponte de Valhelhas. Feito o negócio regressou por Famalicão e Vale de Estrela. No mercado adiante, no Barracão, vendeu o porco e ganhou bom dinheiro.
Quando vinha o azeiteiro tiravam meio quartilho de azeite para toda a semana. Meio quartilho de petróleo era quanto bastava para alumiar. E estavam as compras feitas. O vendedor fiava de ano a ano. Ao fim do ano faziam-se as contas.
Era preciso lavar a roupa no sábado para a vestir ao domingo. Tinha de ser assim para aparecer a gente lavada.
Júlia nasceu com um dom especial para a costura e para a arte de talhar. Nunca ninguém a ensinou.  Fazia cuecas, ceroulas de homem, camisolas de malha, blusas para mulher, camisas, tudo. Deitava-se na cama a magicar nos desenhos, nos riscos e nos cortes. Quando se levantava a obra nascia. Aprendeu sem mestre e correu todas as máquinas de costura do povo. Sabia cozer, mas não tinha dinheiro para a máquina. Hoje tem uma e ainda a usa. Rendas e malhas também não lhe ocultavam segredos. Todas as obras tinham de ficar absolutamente perfeitas. Gosta das coisas bem feitas e não é pessoa para se ficar pelos alinhavos. Até na terra faz os regos direitinhos, melhor que muitos homens!
Durante as suas orações, pediu muitas vezes: “Ó meu Divino Senhor, ponde os ricos pobres e os pobres ricos.” Para quê?
- perguntei - “Para os pobres comerem.” Ao que se sabe, o Divino Senhor nunca atendeu as suas preces. Contudo, algo aconteceu que provocou grandes mudanças na vida: desde o 25 de Abril melhorou muito.
Júlia Fonseca namorou cinco anos e casou aos vinte e três. Sabia desde garota que aquele rapaz lhe haveria de falar. E falou. Esteve casada vinte e cinco anos; é viúva há vinte e nove.


Escapar à zurra

As festas populares eram um divertimento maior. Júlia não lhes ficava indiferente e procurava não faltar às festas da Corujeira, Vale de Estrela, Vela, Maçainhas... Bailava-se, cantava-se e em meia dúzia de horas esqueciam-se as agruras da vida.
Certa vez foi a Casal de Cinza, à festa da Senhora da Póvoa. Nem o drama que ia ser apresentado na palheira, por detrás da igreja, a fez ficar na Aldeia. Dramas havia muitos, feitos por pessoas da terra que gostavam dos teatros, e festa só havia de ano a ano. Cantou a Senhora da Póvoa, bailou, folgou quanto pôde. Foi um dia esplêndido. No regresso, ao atravessarem a ribeira na Quintanzinha, junto ao Barracão, uma rapariga que a acompanhava caiu da burra e ficou encharcada. Valeu-lhe na ocasião a futura sogra que lhe emprestou o saiote.
Outra vez ia para o Noéme (ao fundo da Guarda), apanhar batatas com a mãe. Chegadas à Santa Cruz, junto a um atalho que ia dar ao Barracão, a mãe lembrou-se que necessitava de umas compras da Guarda. Júlia tinha planos para esse dia e ofereceu-se para fazer o recado: “Ó minha mãe, vou eu.” Voltou para trás e combinou com uma rapariga amiga irem à festa de Maçainhas. Foram à Guarda, Júlia mercou o que precisava, e depois foi para a festa com a amiga. Mas havia algo que não estava nos planos: veio uma trovoada muito grande e o xaile ficou todo molhado. (Eu com o xaile molhado e a minha mãe sem saber.) Atalharam pela igreja de Vale de Estrela e chegou a casa antes da mãe. Foi uma sorte; se não... tinha zurra! Escondeu o xaile e a mãe de Júlia nunca soube da festa.

Quando tinha dezoito anos houve um grande festejo na Guarda, na Praça Velha, em frente à Câmara Municipal. Todas as freguesias do concelho estiveram representadas e mostraram as suas danças e as suas canções. Houve ensaios na Aldeia: tocavam flautas de pastor, tocavam ferrinhos e cantavam. Júlia, naturalmente, não faltou. Onde houvesse cantigas... Bailei como nunca. Fui buscar uns sapatos ao sapateiro e rompi-os nesse mesmo dia.
Apesar de não trocar a sua Aldeia por nada, fez mais de vinte vezes o caminho de França para visitar a filha. Sempre gostou de viajar e conheceu Portugal em diversas excursões: “Havia umas pessoas que alugavam uma camioneta para dar passeios. Nós fomos sempre. Às vezes eram oito dias. Levávamos comida e cozinhávamos por lá. Até no Terreiro do Paço fizemos o caldo...”




Cantar sem toques

Era Junho. Era um fim de tarde claro e luminoso. Um fim de tarde como tantos outros, em que o calor não atraiçoava o calendário. Vinham da ceifa e cantavam para exorcizar a canseira.
O Ti Zé da Costa, homem entendido nas cantorias, disse: “Ó cachopa, tu devias era ir para cantora!” A cachopa não foi para cantora, mas canta e sabe cantar. Dona de uma senhora voz (ou senhora de uma dona voz), sempre cantou, desde pequena. Se ouvisse cantar uma música, nas ceifas, na praça da Guarda, na praça de Belmonte, ficava-lhe na cabeça.
Andavam nas fadigas, mas quando chegava o domingo havia vontade de cantar, de dançar... Nos bailes ditavam leis os tocadores de concertina (o seu instrumento preferido). Se não vinha ninguém de fora, todos dançavam e cantavam: solteiros, casados... Só a cantar, sem toques, no largo. . Não havia televisão, nem carros. Era tudo quieto e tinham de se divertir.
Agora tudo morreu. Os velhos já são velhos e os novos não querem saber dessas coisas



Sustentava-me a ver o mar

Júlia vive sozinha. Faz a vida de casa e cultiva batatas, feijões...
Ouve rádio: às seis da manhã ouve as notícias da Antena 1. e gosta da Rádio Monsanto porque passa música portuguesa. À noite, com a televisão por companhia, faz renda; por vezes, quando dá conta já é uma da manhã.
Já foi à televisão, em Maio de 2002, mas não apreciou muito a experiência. Tudo por causa de uma apresentadora que a interrompeu a meio de uma canção, porque... “já sabiam como cantava”.
Gosta muito de dançar, mas não gosta dos bailes com os conjuntos em salas fechadas. Gostar, gostar é do toque da concertina.
Gosta de ver o mar.

" Sustentava-me uma semana a ver o mar, a ver as ondas chegarem e abalarem. Só a ver o mar. "

Texto de César Prata



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A arte de Gastão Augusto Rodrigues 

 

 (...) a flauta travessa, também conhecida pela designação flauta de pastor, parece ser a figura maior no panorama instrumental da Beira Alta.

 

A viola braguesa e o cavaquinho são do Minho. A viola campaniça é do Alentejo. O adufe é da Beira Baixa. O som da gaita-de-foles traz imediatamente à ideia a região de Trás-os-Montes. E na Beira Alta? Quais são os instrumentos musicais populares característicos?

A melhor forma de satisfazer a nossa curiosidade será, sem dúvida, recorrer à bíblia dos instrumentos musicais populares portugueses. Em 1960 Ernesto Veiga de Oliveira foi contactado pela Dra. Maria Madalena de Azeredo Perdigão (Directora do Serviço de Música da Fundação Calouste Gulbenkian) no sentido de proceder à recolha dos instrumentos musicais populares do País. Desse trabalho de recolha resultou a obra “Instrumentos Musicais Populares Portugueses” que conheceu, até hoje, três edições (1964, 1982 e 2000).

Vamos saciar a nossa curiosidade junto do mestre. Escreveu Veiga de Oliveira: “Na Beira Alta ocidental encontramos poucos instrumentos específicos, e a música popular, também de género exclusivamente ligeiro e recente, parece estar hoje a cargo de conjuntos de tipo afim das rusgas nortenhas, compostos sobretudo de instrumentos de tuna, sem carácter local; apenas em certas regiões serranas, mais a leste, aparece por vezes, em mãos de pastores, a flauta travessa. Em terras de Manteigas (Sameiro) e Covilhã (Verdelhos), temos notícia, referida a poucos anos, de um pequeno conjunto, de pífaro e caixa, que acompanhava a dança masculina das ‘trancas’ (...)”.[1] E pronto, estamos conversados: instrumentos de tuna (sem carácter local), pífaro e caixa para acompanhar a dança das trancas (manifestação localizada) e flauta travessa.

Perante tais conclusões, a flauta travessa, também conhecida pela designação flauta de pastor, parece ser a figura maior no panorama instrumental da Beira Alta.

Dizemos parece porque a investigação relativa aos instrumentos musicais populares da região da Guarda é uma área muito pouco explorada, onde, sem dúvida, haverá muito trabalho por fazer. Talvez (quem sabe...) o levantamento de cultura popular — em boa hora encetado pelo Núcleo de Animação Cultural da Câmara Municipal da Guarda —traga mais alguma luz sobre o assunto. Um dos grandes aliciantes deste tipo de trabalho é, precisamente, nunca se saber o que se vai encontrar e fazer de cada dia uma aventura inesperada.

Vamos, então, ao encontro de um construtor e tocador de flauta travessa.

Gastão Augusto Rodrigues tem oitenta e dois anos. Nasceu na Sapateira, uma anexa da Prova (concelho da Meda) e vive na Torre do Terrenho (concelho de Trancoso). De música, tal como diz, só sabe dizer as notas de uma escala: dó, ré, mi, fá, sol, lá, si. Contudo, sempre gostou de ouvir tocar e cantar e desde cedo descobriu que tinha um dom natural para a música.

Numa certa ocasião foi com a mãe à feira da Meda e pediu-lhe uma harmónica. A senhora fez a vontade ao pequeno e não terá dado o dinheiro por mal empregue, uma vez que no caminho de regresso a casa já o miúdo tocava qualquer coisa que se ouvisse.

Todavia, o encanto de Gastão era a flauta de pastor. O seu primeiro mestre foi, precisamente, um pastor. Tocava bem, tocava mesmo muito bem. As flautas compravam-se na feira da Santa Eufêmea, em Penedono. Aí se juntavam pastores que sabiam muitas músicas. Durante a feira tocavam juntos, horas e horas seguidas. Aprendeu com eles, nessas aulas informais, local privilegiado para perpetuar tradições.

Um dia — teria os seus catorze anos —, pediu ao pai para lhe comprar uma flauta na feira da Santa Eufêmea. Foi a sua primeira flauta. Deu-lhe uso durante anos e  anos, mas hoje já lhe perdeu o paradeiro.

Passados alguns tempos enamorou-se de um harmónio que pertencia a um criado de uma irmã. O serviçal era dono do instrumento, mas não sabia tocar. Gastão comprou-lho por vinte escudos — todo o dinheiro que tinha.

A paixão seguinte foi uma concertina, comprada aos dezoito anos.

Recorda os domingos com um misto de emoção e nostalgia. Juntava-se muita gente (as famílias eram numerosas) e as tardes passavam-se a bailar ao toque da concertina. Gastão era o músico de serviço. As moças não o largavam: queriam bailar e o tocador tinha que tocar! Nos casamentos tocava desde o jantar até ao nascer do sol, quase sem repetir as músicas!

A concertina teve, porém, um fim triste. Gastão emprestou-a a um homem da Mendo Gordo para tocar numa festa no Terrenho. O homem embebedou-se, caiu e o fole da concertina estragou-se.

Seguiu-se uma pausa na “vida artística”. O trabalho apertava e a disponibilidade não era muita. O cargo de comissário da resina ocupava-lhe muito tempo: era necessário dar conta do número de bicas de cada um e fazer os pagamentos com  o dinheiro que lhe era confiado pela Companhia da Resina.

O gosto pela música, naturalmente, nunca morreu. Digamos que tinha ido de férias... Assim, mais tarde comprou um acordeão por dois mil e quinhentos escudos.

Há cerca de catorze anos começou a investir na arte de construir flautas e outros objectos de madeira ligados à tradição (ciclos do linho e do queijo) e à religiosidade popular. Estragou muita madeira e as primeiras flautas não tocavam lá grande coisa... Mas a persistência deu os seus frutos e as flautas começaram a soar como as dos pastores da Santa Eufêmea!

Gastão também integrou o rancho folclórico de Trancoso. Tocava acordeão, mas, mais tarde, por conselho de um amigo, começou a tocar flauta. O velho amigo, antigo pároco da Torre do Terrenho com quem em tempos tinha caçado e jogado futebol, tinha, agora, responsabilidades ao nível do folclore. Chamava-se... Morais; padre Morais. Em todas as actuações do rancho a flauta passou a ser muito apreciada.

Gastão já não constrói flautas. Faleceu no mês de Julho de 2004, levando consigo memórias e saberes inestimáveis que acumulou em toda a sua longa vida. Muitas das flautas que construiu viajaram para Lisboa, França, Alemanha, Brasil, Noruega... espalhando assim a sua memória pelo mundo fora...

 

Texto de César Prata


 

[1] Ernesto Veiga de Oliveira, Instrumentos Musicais Populares Portugueses, 1964, p.69