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Chuchurumel faz-se, em primeiro lugar, de encontros. Encontros com gente que ama profundamente aquilo que faz ...

Chuchurumel desenvolve trabalho no âmbito de recolhas da tradição. Ao longo dos vários dias passados a percorrer numerosas aldeias do distrito da Guarda, passando pela faixa raiana, e descendo um pouco mais a sul, foram muitos, e muito preciosos, os testemunhos recolhidos de gente que passou os dias da sua vida numa labuta que, hoje em dia, pouco ou nada nos diz. Estas pessoas falaram-nos da fome passada, das canseiras do trabalho de todos os dias, das alegrias de outros. Falaram-nos de festas, de rituais, de crenças. Estas pessoas falaram-nos da vida.
E cantaram-na para nós, como sempre o fizeram.

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

azufe | um adufe de A a Z
construtor: José Relvas
local: Idanha-a-Nova
data: 7 de Janeiro de 2007

 

 

 

 

 

 

 
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Fotografias César Prata

 

 

 

 

Fotografias Julieta Silva

De pés descalços é que se tocava a roda. De pés descalços e com toda a concentração, para que a roda não desandasse para a frente. E cantava enquanto andava a tocar a roda? Oh, se cantava! (e os seus olhos brilham, parece que ainda cheios daquela água que a roda ajudava a subir para regar o milho, uns metros largos acima do nível do rio Zêzere, que corre fraquinho neste mês de Agosto). Cantava para não adormecer, porque era muito o tempo em que tinha de caminhar, caminhar, caminhar, sem nunca sair do mesmo sítio. Ai borda d'água, borda d'água... E a roda, no inesgotável cumprimento da sua função, emite um plangente "ã-ã", qual bordão de um arcaico instrumento musical construído pelos deuses e que serve de nota pedal aos cantos que, encontrando-se o corpo preso à árdua tarefa de pôr a roda em movimento, a alma essa sim, livre solta radiante para o céu. A roda gira, gira, gira... E é o mundo inteiro que vai nela e gira também.     ouvir

 

 

 

 

 

A simplicidade é fascinante. Construir o belo com o simples, uma quimera.
Silvina Marques é uma mulher simples, mas ao mesmo tempo especial. As palavras e os gestos transbordam simpatia e o seu olhar afaga incessantemente quem a escuta.
Trabalhar de sol a sol para o sustento da casa? Carregar pedras para construir muros? Tratar do marido limitado nos movimentos pela doença? Tudo é fácil, tudo é absolutamente natural. A canção da trovoada afasta as pestes para longe e as outras rezas tratam do resto. Que a Silvina nos acompanhe.
 

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Fotografia César Prata

 

 

Canção para afastar as trovoadas [Silvina Marques] | Programações [César Prata]   (Ver video introdutório do espectáculo)

 

 

 

 

 

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Todas as mulheres da Beira Baixa têm um adufe. Esta é a imagem romântica da tradição: ranchos de mulheres, a caminho das diversas romarias que se sucedem a seguir à Quaresma. Nas mãos o adufe, na garganta as magníficas canções que entoam de forma tão especial e única.
A realidade anda perto. Recentemente aprendemos que pedir a uma mulher da Beira Baixa para cantar (cantar, assim, simplesmente), não se faz. Ela precisa de um adufe para se acompanhar. Se não o tiver à mão (melhor… às mãos!) utiliza o que quer que seja para produzir ritmo: uma mesa, uma garrafa de água vazia, …
Emília Antunes vive em Penha Garcia. Acompanhou durante muitos anos Catarina Chitas e sucedeu-lhe na direcção do grupo da terra. Hoje, limitada pela falta de vista, continua a tocar adufe, a (en)cantar e a receber de braços abertos quem a queira visitar.

 
 

Nossa Senhora da Azenha

 

Fotografias César Prata

 

 

 

 

O seu nome é Peroguarda. É muito pequenina, mas já viveu muito. Tem calor no verão e frio no inverno. Dela se avistam sobreiros e oliveiras, a perder de vista. Em tudo parece igual às suas vizinhas, mas algum mistério tem. Será o dourado das searas? Será o sorriso terno e cheio de vitalidade de Alice Fortunato, noventa anos e outros tantos tesouros para nos mostrar? Será o rigor incansável do nosso amigo Relvas, oitenta e três anos, quando nos explica que «...é almocreve que se diz. Na escola, escrevíamos almocreve, não era alocreve nem almecreve, como muitos agora dizem ou cantam...»? Será o perfume inebriante das tílias, quando um vento de esperança, de repente, as agita?

Fotografias César Prata

 

 

 

       
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José Rego Relvas

Ele é o último construtor de adufes. Um verdadeiro construtor de adufes. (Adufes também eles verdadeiros.)
José Relvas vive em Idanha-a-Nova e conhece o instrumento como poucos. Herdou das mãos dos seus ancestrais uma técnica de construção apurada e dedica os seus dias a construir adufes e objectos de cortiça: tropeços (pequenos bancos), mesas e até a torre da igreja da Idanha, com escadas, sineiro e tudo. Como respeita a tradição que lhe foi confiada, continua a coser as peles e não quer ouvir falar em agrafadores. Lá dentro coloca um guizo. Era assim que se fazia antigamente e ele tem uma prova que gosta de mostrar (um adufe muito antigo).
“Sem fantasias”, tal como ele diz, isto é, limitando-se a repetir o que lhe ensinaram, constrói adufes. Conhece as peles e as técnicas de tratamento como poucos e tem encomendas de Portugal e do estrangeiro. Tem na sua oficina o maior adufe que é possível construir, limitado apenas pelo tamanho da pele da ovelha, como faz questão de referir.
Qualquer dia, se lhe der na cabeça, vai embora para a Alemanha. Para trás deixará um país que não se importa de deixar partir o único construtor de adufes que possui.
Estranho país, este.

   

Fotografias César Prata

 

 

 

 

Fotografia César Prata

 

"Aprendi esta canção com a minha avó. Quando eu era pequena, era costume as meninas dormirem com as avós para as aquecerem. Numa dessas noites de inverno, aprendi esta canção de reis..."

Os três reis do Oriente
Recolhido em Lamosa, Sernancelhe
Cantam: Alice Botelho (64 anos), Alzira Costa (75 anos) e Laura Gomes Dias (81 anos)

 

 

 

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Júlia da Costa Fonseca nasceu na Aldeia, a 15 de Janeiro de 1926, e sempre aí viveu. Aldeia, assim e só, é a forma simples e carinhosa como trata a sua terra, Aldeia do Bispo. O seu carácter alegre afrontava os tempos tristes da sua juventude. Tristes pelas dificuldades, tristes pelas canseiras, tristes pela labuta diária para conseguir o pão. A mais velha de uma fratria de sete irmãos, cedo teve de começar a trabalhar, a ajudar. "Sempre tive vontade de cantar. Cantava em qualquer lado. Ainda mesmo agora, quando ando boa, ando sempre a cantarolar."

Ver texto Modinhas à moda da Dona Júlia de César Prata.

 
   

Fotografia Lionel Balteiro

 

 

 

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Maria Augusta Moleira é natural de Quadrazais (Sabugal). Tem oitenta e seis anos de vida difícil, mas alegre. Conta-nos que sempre cantou. À semelhança dos seus conterrâneos,  desde cedo começou a fazer contrabando e a viver dos (parcos) lucros desta actividade. O contrabando, sendo ilegal, tinha os seus riscos e por isso desenvolve-se em Quadrazais uma gíria que viria a ter um papel exclusivamente funcional e relacionada com a actividade contrabandista: o quadrazenho. Era uma gíria muito completa que utilizava a gramática e alguns verbos da língua portuguesa, mas que via a maior parte dos substantivos substituídos pelos da gíria. Maria Augusta Moleira falou connosco em quadrazenho e também nos cantou uma canção nessa gíria: Soenes crunhe penhar  (José Franco)                    letra da canção

Fotografia César Prata

 

 

   

 

 

 

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António Pires nasceu e foi criado em Aldeia Velha (Trancoso). Quando era ainda um rapazito de sete aninhos, o pai comprou-lhe a sua primeira flauta de pastor e começou então a tocar. Em crescendo, dedicou-se a construi-las, usando madeira de sabugueiro. Passou a acompanhar os bombos de Miguel Chôco na sua ida à Festa dos Montes. Hoje, com oitenta e seis anos, já não tem pernas  para acompanhar os bombos, mas tem fôlego para tocar na sua flauta e para nos contar as histórias e peripécias da sua vida. Falou-nos dos bailes que se faziam no Largo da Figueira, em Aldeia Velha, ao som da flauta. Todos ficavam alegres quando começavam a ouvir a música e a dançar. As canseiras do dia de trabalho eram logo esquecidas.

Tocou-nos a moda dos bombos de Miguel Chôco.

Fotografia César Prata

 

 

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Gastão Augusto Rodrigues  foi, durante quase toda a sua vida adulta, caseiro do Solar dos Brasis (Torre do Terrenho - Trancoso). Contou-nos que, quando era miúdo, insistiu muito com o pai para que este lhe comprasse uma flauta numa feira, até que a obteve. Dedicou-se, então, a descobrir-lhe os segredos, tanto quanto à  forma de se tocar, como quanto ao seu fabrico. Recolhido na sua pequena oficina,  gastava aí largas horas a construir flautas de pastor, castanholas e outras peças de artesanato em madeira e em pedra, onde deixava impressos o seu nome e o do belo monumento de que era guardião. Vendia-as, depois, a turistas e a outros curiosos que iam visitar o Solar dos Brasis. Gastão Rodrigues tocou e cantou para nós coisas que passeavam pela sua memória de oitenta e seis anos.

Faleceu no mês de Julho de 2004, levando consigo memórias e saberes inestimáveis que acumulou em toda a sua longa vida.

Fotografia César Prata